Amor

O que é o amor?

Por 11/03/2013 março 9th, 2017 Sem comentários

O verdadeiro amor é mais construído do que encontrado e se estende muito além das fronteiras do casal. Essa é a mensagem que o incrível texto a seguir, de Mark Vernon, tenta nos passar. Em dias onde tudo começa e acaba com tanta rapidez, vale parar e refletir. O que é o amor?

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Foto: Steve McCurry/Magnum

É uma estatística notável que a pergunta “o que é…?” mais digitada no Google ano passado foi: o que é o amor? Esse fato, provavelmente, revela mais sobre a sociedade que pergunta a uma ferramentas de busca tal coisa do que qualquer resposta diz sobre a natureza do amor. As máquinas de fantasia de Hollywood e Bollywood insistem que há apenas uma resposta permitida: a do tipo romântico. A maioria das pessoas, à primeira vista, concorda. Elas são levadas a procurar por uma pessoa que as tornará “completas”, por meio de sites de encontros ou se lançam em uma busca menos tangível, pois a cultura dominante insiste que devemos encontrar “a pessoa”. A origem disso tudo não é recente. Desde que a poeta Safo escreveu, no século VII a.C., sobre o amor se agitando sob sua pele como o vento sopra através das árvores, o amor romântico tem sido imaginado como irresistível, uma experiência crucial que marca o ápice da existência humana.

No entanto, as estatísticas do Google sugerem que também existe uma busca silenciosa a caminho. Claramente, muitos de nós não estão satisfeitos com o romance como resposta. O problema real, então, pode ser a cultura contemporânea que nos deixa despreparados para pensar sobre o amor de qualquer maneira que não seja unidimensional. Assim como o casamento monopolizou as demonstrações públicas de amor, a noção de romance restringiu o que podemos imaginar como uma relação amorosa.

Os gregos antigos, ao contrário de nós, não tinham uma única palavra para o amor, mas muitas. Eles tinham philia (amizade) e eros (desejo), storge (afeição) e agape (amor incondicional). Talvez essa seja apenas outra parte do nosso problema. Nossa língua nos convida a pensar sobre o amor como uma coisa única, quando não há nada da espécie. Eu suspeito que palavras não sejam o suficiente para lidar com essa deficiência moderna. O que precisamos é de uma nova noção de variedade de experiências do amor. Felizmente, nós podemos nos valer de algumas contribuições de nossos antigos antepassados: não são suas palavras, mas os seus mitos que podem nos iluminar.

Em um sentido, nós somos movidos pela predominância do amor; ele não pode ser deixado de lado em favor da amizade, por exemplo. Isso jamais funcionaria: o erótico é simplesmente muito poderoso. Mas antigos mitos podem nos ajudar a perceber porque o romântico é um produto tão bem sucedido. Talvez o mito que capture nossa fascinação pelo romance da melhor maneira seja a ideia de Aristófanes sobre almas gêmeas, relatada em O Banquete. A estória diz que os seres humanos, originalmente, tinham duas cabeças, quatro pernas e quatros braços. Nós fomos modelados em forma de bolas e transitávamos pela face da Terra a grande velocidade. Os deuses ficaram alarmados com tamanha demonstração de poder. Zeus, então, desenvolveu um plano. Ele cortaria os seres humanos em dois, deixando cada metade com apenas uma cabeça, dois braços e duas pernas.

Essas metades mutiladas eram uma visão patética. Aos poucos, esses estranhos seres desenvolveram o hábito de gastar muita de sua, agora limitada, energia em busca de suas metades perdidas. O desejo de encontrar a parte perdida era irresistível. Os indivíduos nunca desistiam de sua busca, apesar de repetidas separações e desastres românticos, na incansável crença de que a pessoas certa – a pessoa – estava por aí. A promessa do amor, eles sentiam, não era nada mais que se sentir completo.

Esse mito ainda sobrevive e, até hoje, descreve com precisão a experiência de todos que sentem que a vida não está completa sem um grande amor. Na verdade, foi apenas no século XVIII que o pensamento de Aristófanes sobre o amor atingiu sua conclusão lógica, quando Jean-Jacques Rousseau escreveu como ele se apaixonou quando jovem. Apenas depois dessa experiência, que ele julgou ter certeza ter vivido de verdade. O desfecho foi que o amor romântico tinha se tornando um fim em si mesmo. Não importa por quem você se apaixona, desde que você se apaixone. O ideal empírico usurpa a complexa realidade pessoal. É por isso que o romance nos possui completamente e nos esvazia no processo. O mesmo acontece com a dogmática busca pela felicidade.

No entanto, o mito original de Platão sobre almas gêmeas não termina com uma felicidade evasiva e ilusória, mas com algo inesperado. E aqui há algo para nos ensinar e que sugere uma fuga da fortaleza romântica. Zeus fica com pena dos humanos partidos ao meio e reposiciona suas genitálias. Assim, quando se encontrassem, poderiam se abraçar e liberar um pouco a sua paixão. O sexo é uma prova temporária de unidade e ajuda, mas apenas até certo ponto. Então, quando Hefesto, o deus dos artesãos, passa por perto e concede aos casais um desejo, essas figuras trágicas dizem em uma só voz: funda-nos!

...para que o amor tenha futuro, o casal precisa migrar da fase da paixão para o amor, manter-se amando

Hefesto concede. Os dois se tornam um. E a nova situação releva outra maneira como o amor empaca. Colados, o casal só tem olhos um para o outro e acabam perdendo noção e contato com o resto da vida. Não ligando para mais nada além do amor, a morte se apresenta como alternativa e o casal passa a sonhar com um último suspiro juntos – uma fantasia que vive no la petite mort (a pequena morte, eufemismo francês para o orgasmo) e no clímax romântico de Romeu e Julieta. Mas como o psicólogo Erich Fromm disse em “The Art of Loving (1956)”, para que o amor tenha futuro, o casal precisa migrar da fase da paixão para o amor, manter-se amando. O amor precisa aprender a abranger aquilo que está fora do aconchegante mundo a dois para sobreviver. Como Freud explicitou, o amor a dois pode ser protetor, mas pode, igualmente, alienar e ser claustrofóbico e o conto de Aristófanes sugere que devemos transcendê-lo.

A questão é: como? Como pode a energia que o desejo romântico libera ser direcionada para fora, para que alimente não apenas a paixão por uma vida juntos, mas pela própria vida. A resposta está em outro mito antigo, um que está quase esquecido atualmente. Ele diz repeito à infância do deus do amor que nos é bastante familiar: Eros. No entanto, o mito também apresenta outra figura não muito conhecida, o seu irmão.

Quando Afrodite deu Eros à luz, tudo parecia bem. Mas Afrodite notou algo que a deixou preocupada. A criança não estava crescendo. Suas asas não passavam de pequenos brotos. Ele era um pouco gorducho e seu corpo não desenvolvia músculos. Era como se ele estivesse possuído por um espírito que o prendia à infância, que impedia que o garoto amadurecesse. Afrodite, apreensiva, consultou sua irmã, a sábia Têmis. A deusa dos bons julgamentos, cujo nome se traduz, literalmente, como “o que funciona”, aconselhou sua irmã a ter outro filho, dessa vez de Ares, o bravo e poderoso deus da guerra. Têmis instruiu sua irmã a batizar o segundo filho de Anteros – ele e Eros seriam semelhantes. Afrodite seguiu as orientações da irmã, que funcionaram. Os dois filhos eram rivais. Eles se provocavam e brigavam, mas se amavam. Enquanto eles brincavam lado a lado, Eros se desenvolvia normalmente, mas quando estavam separados, Afrodite notou que Eros regredia.

O que Anteros trazia era a dificuldade, um equivalente romântico à rivalidade entre irmãos, que as crianças tanto odeiam em sua disputa pela atenção dos pais durante a infância, embora, assim como nas tensões dos relacionamentos adultos, seja exatamente isso que as construa. Anteros traz a coragem necessária para resistir à tentação de buscar proteção e desaparecer nos braços de outro. Em vez disso, dá início a um processo de construir uma vida de amor. O que ele representa é o espírito saudável que reside nas discussões e bate-bocas de quem ama, que, quando passam por reflexão, geram aprendizado e, principalmente, maturidade. Um provérbio do século XVI transmite bem essa dinâmica: “a briga de amantes é a renovação do amor”. Se Eros é o deus do amor que atira flechas nas pessoas e as torna loucas de desejo, Anteros é o deus do amor que opõe essa loucura com uma mistura do pragmatismo de sua tia e a força de seu pai.

Mas o mito nos ensina mais. Têmis, a tia de Anteros, também era conhecida por sua habilidade de alinhar e curar energias conflitantes. Hoje, seus sucessores são os terapeutas: eles tendem a se interessar mais em como casais problemáticos lidam com as emoções liberadas por brigas, do que buscar uma maneira de evitar brigas. A irritação e o ódio, o medo e a vulnerabilidade de relações difíceis podem ser uma oportunidade. Essa não é a sua metade perdida, sugere o terapeuta, mas alguém com quem você deve encontrar mais integração e unidade com você mesmo. A vida não é aperfeiçoada através do amor, como diz a fantasia romântica, mas é através do amor que se tira maior proveito da vida.

Vale a pena atentar ao detalhe que Anteros ajudava o seu irmão apenas enquanto brincavam juntos. Quando estavam separados, Eros regredia. Talvez isso expresse o valor do comprometimento em relacionamentos, que cria um recipiente para os altos e baixos, permitindo que problemas sejam trabalhados e superados. Tudo isso sugere que um bom relacionamento vem do futuro, não do passado, como mito de Aristófanes sugere. O Amor é mais construído do que encontrado.

Fundamentalmente, o mito de Eros e Anteros é um amor triangular. Os irmãos brigam pela atenção de Afrodite. É o tipo de amor que dá vida, porque Eros e Anteros podem desejar algo além de suas preocupações a dois. O amor deles é triangular: ele é acionado por algo ou alguém que está além do amor que um tem pelo outro. A rivalidade conduz os irmãos a elementos externos da vida, e porque não à própria vida. Consequentemente, Eros amadurece.

O casal agora não é mais movido pelo desejo que um tem pelo outro. Ao invés disso, uma intimidade mais expansiva se desenvolve, que tem qualidades parecidas com a amizade. As palavras do poeta francês Antoine de Saint-Exupéry vêm à mente:

A experiência nos mostra que o amor não consiste em olhar fixamente um para o outro, mas em olhar para frente juntos

Como amantes, duas pessoas se olham nos olhos; como amigos, eles podem olhar para frente juntos. Assim, o casal passa a olhar para vida que existe além deles e, um com o apoio do outro, agora sustentados pelo amor, possuem os recursos para encarar o futuro juntos.

O amor triangular, onde um espaço é criado no relacionamento para a vida (e para o amor), além das fronteiras do casal, é a forma mais desenvolvida do amor humano, porque ele faz que uma vida boa seja possível. Esse tipo de amor tem uma crescente consciência e sensibilidade ao mundo que transcende o indivíduo.

Pessoalmente, eu sempre ofereço a Anteros uma reverência. Esse é um cauteloso agradecimento ao lado mais complexo do amor.

Notas

Mark Vernon, ex-padre, hoje, é escritor e jornalista. Seu novo livro, Love: All That Matters, já está à venda.
O texto acima é uma adaptação do texto “What is love” de Mark Vernon. Leia o artigo completo em: What is love?
Tradução: Blog Poésie

Nossas Considerações

Sim, nós somos os maiores defensores do amor romântico. A cada dia lutamos para que os casais e, principalmente, os homens tragam um pouco de romance para vida e para os relacionamentos. No entanto, concordamos com Mark Vernon. O amor é muito maior e não pode se restringir apenas a isso.

Publicamos, então, o texto para que todos reflitam e tirem suas próprias conclusões. Esperamos que todos os casais construam relacionamentos sólidos e duradouros e que, sim, tirem maior proveito da vida através do amor.

SEJAM FELIZES.

Procurei muito em várias joalherias um anel que estivesse à altura do que minha futura noiva merecia. Consegui tudo isso com a Poésie. Não à toa minha noiva ouve com certa frequência e com muito orgulho: 'este é o anel mais bonito de todos que já vi'.

Kadu

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